Locação sob pressão: até quando dura o efeito da Selic?

O quarto corte seguido, e o ritmo que incomoda o mercado

Em 5 de agosto, o Copom reduziu a Selic pela quarta vez seguida, para 14% ao ano. O corte foi unânime, mas o destaque ficou no comunicado: cauteloso e restritivo, sem promessa de novas quedas automáticas. O Banco Central sinalizou que cada decisão dependerá dos próximos dados, um movimento de freio gradual, não de mudança de rota.

O Copom está cauteloso por três motivos: a inflação segue acima da meta, com o Focus projetando IPCA de 5% em 2026 e riscos maiores de alta; a incerteza fiscal típica de ano eleitoral, com gastos públicos pressionando preços e câmbio; e o cenário externo instável, marcado por tarifas dos EUA e expectativa sobre o Fed.

O resultado prático dessa combinação: o crédito imobiliário segue caro por mais tempo do que o esperado no início do ano, com taxas na faixa de 11% ao ano mais TR nas linhas tradicionais do SBPE.

Os efeitos em cadeia no mercado de locação

Esse cenário de juros altos por mais tempo produz um efeito em duas frentes que se somam contra o estoque de imóveis disponíveis para locação. De um lado, quem compraria um imóvel financiado adia essa decisão enquanto a parcela seguir pesada no orçamento, e permanece como inquilino.

De outro lado, o investidor faz a mesma conta: a rentabilidade líquida de um imóvel alugado (entre 3% e 4,5% ao ano, depois de impostos e custos) perde feio para uma renda fixa pagando Selic acima de 10% ao ano, o que faz o capital que poderia comprar imóveis para alugar ficar estacionado em CDB, Tesouro ou fundos imobiliários.

O resultado dessas duas forças puxando na mesma direção é um estoque de locação que não cresce no ritmo da demanda, como consequência aluguéis subindo, mês após mês, acima da inflação oficial.

Quanto tempo esse cenário deve durar

Aqui entra a pergunta que mais interessa ao mercado imobiliário: até quando?

A resposta não é exata, mas dá para estimar com base em duas informações: o ponto em que o imóvel volta a competir com a renda fixa, e a trajetória de juros esperada pelo mercado.

O ponto de virada. Comparando o retorno total de um imóvel para locação (aluguel líquido + valorização, que soma algo entre 8% e 10,5% ao ano) com o retorno líquido de impostos da renda fixa (aproximadamente 85% da Selic), a conta só volta a favorecer o imóvel quando a Selic cai para a faixa de 10% a 12% ao ano. Abaixo disso, o imóvel físico volta a ser competitivo; acima disso, a renda fixa segue vencendo com menos trabalho e mais liquidez.

A trajetória esperada. O Boletim O Focus de 10/8 projeta a Selic em 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027 e 10,25% em 2028. Isso sugere equilíbrio entre imóveis e renda fixa apenas a partir de 2027/2028, lembrando que as projeções mudam semanalmente e servem só como cenário-base.

Na prática, o interesse por imóveis tende a aquecer antes, pois o investidor não espera a Selic atingir o alvo final, basta a expectativa de que ela esteja se aproximando do nível ideal para estimular a procura.

O que isso significa na prática para as imobiliárias

Com estoque curto e pressão prolongada por pelo menos dois anos, a cautela deve estar em três frentes:

  • Risco de inadimplência: a inflação acima da meta corrói a renda das famílias e aumenta a chance de atraso no aluguel. Por isso, cada contrato fechado é vital, e uma análise de crédito com inteligência de mercado, como o Score FC, ajuda a avaliar a real capacidade de pagamento do aluguel especificamente.
  • Relacionamento com o proprietário: em cenário de escassez, o proprietário é o ativo mais disputado. Comunicação próxima, agilidade e locações consistentes, sem devoluções precoces, são decisivas para evitar que ele migre para a concorrência.
  • Acompanhamento de indicadores: seguir indicadores do mercado imobiliário e econômicos permite ajustar valores de forma justa e se preparar para a normalização do estoque nos próximos anos.

 

Em resumo: quando o cenário é ditado por fatores macroeconômicos fora do controle da imobiliária, a melhor estratégia é focar no que está ao alcance. Isso significa selecionar inquilinos com critérios objetivos e oferecer a eles uma experiência fluida, garantindo ao proprietário segurança e tranquilidade. O resultado é menor inadimplência, maior lucratividade e produtividade, com a operação concentrada na atividade fim, a locação, e menos processos de desocupação, sinistro e realocação. Essa eficiência fortalece a imagem da imobiliária, que tende a sair desse período crítico ainda mais sólida.

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